A realidade esportiva que o jovem brasileiro quer para si


Quando se fala em esportes, o Brasil é o país... Não tenho dúvidas de que as minhas reticências você já deve ter completado instintivamente “...do futebol.” Melhor seria, no entanto, se ao invés de reticências, tivéssemos nos acostumado ao ponto final: quando se fala em esportes, o Brasil é o país. Não falo por mim, quem diz isso são os próprios jovens da sociedade brasileira. Há um descompasso profundo entre a realidade atual do esporte no Brasil e a realidade esportiva que os jovens querem viver. Se o futebol é a paixão nacional, então vivemos aquele delicado momento em que uma paixão se torna sufocante, ciumenta, tão possessiva que tudo o que queremos é nos libertar para finalmente viver a felicidade de nos reencontrar com os amigos que a paixão dominadora suprimiu. A supremacia absoluta do futebol no Brasil não condiz com o desejo latente e a busca constante dos jovens brasileiros por novos esportes além dele. Ser o país de um só esporte definitivamente não bate com a pluralidade esportiva a que os jovens aspiram. Só para citar alguns dados, 81% dos jovens brasileiros declara que gostaria de praticar algum novo esporte que nunca praticou e 83% diz concordar com a afirmação de que a mídia deveria abrir espaço para outros esportes além do futebol. Você deve se surpreender com a porcentagem de jovens que declara gostar de dança, vôlei, natação, academia, caminhada, ciclismo...

Apresentar com profundidade qualitativa e segurança estatística esse panorama e destrinchá-lo em detalhes é, ao meu ver, o principal presente que a Olympikus dá para o Brasil ao dividir com cada brasileiro a extensa pesquisa sobre o esporte no país que encomendou à BOX1824, disponível em www.obrasilqueviveoesporte.com.br

Como membro da BOX e desse projeto em especial, tive a felicidade de participar de toda a pesquisa, viajar às mais diversas cidades, de Porto Alegre a Recife, conversando com todos os tipos de jovens que tinham uma profunda conexão com o esporte, fosse pela prática, de atletas profissionais a amadores, ou simplesmente pela paixão de vibrar com o esporte preferido, ou os preferidos. Depois de tantas entrevistas, tanto envolvimento com o tema, ficou muito claro para mim que o esporte traz tamanhas contribuições para a vida de uma pessoa que é quase uma injustiça dizer somente que esporte faz bem para a saúde, ele faz muito mais, ele é um pilar fundamental para a construção de uma vida mais plena – em diversos sentidos atribuídos à noção de plenitude. Não é toa que a inclinação ao esporte parece fazer parte da própria natureza humana. Um importante achado da pesquisa confirma essa hipótese: só não faz esporte quem ainda não encontrou o seu. É possível alguém não gostar de algumas ou várias modalidades, mas não gostar de esporte simplesmente, isso é quase anti-natural. Ocorre que alguns já encontraram seu esporte (depois de poucas ou muitas tentativas), mas outros ainda não. Portanto, é uma negligência pública restringir esporte a uma só modalidade, todos deveriam ter ao menos uma primeira experimentação da maior quantidade possível de esportes.

Felizmente, os jovens brasileiros não só desejam como buscam essa abertura. Se há uma palavra que ficou para mim ao concluir todas as entrevistas, essa palavra é democratização. Existe um evidente desejo de democratização do esporte, e ele é tão forte que se desdobra em diversos níveis, partindo da democratização de modalidades e chegando até mesmo à democratização das definições do que é ser um campeão, o que é de fato uma conquista.

Esse desejo, no entanto, esbarra de frente com as dificuldades de se praticar modalidades distintas num país em que todos os aspectos estruturais (mercado, mídia, política, valorização profissional, infra-estrutura...) estão voltados quase que exclusivamente ao futebol, restringindo incrivelmente o incentivo e o acesso a outras modalidades, principalmente entre as mulheres. Só para citar alguns exemplos, 54,5% das jovens brasileiras declara gostar de dança, mas só 11,7% diz praticar, 48,9% declara gostar de vôlei, mas só 5% diz praticar, 41,5% declara gostar de natação, mas só 2% diz praticar. Tendo em vista esse descompasso evidente entre o que os jovens brasileiros querem do cenário esportivo do país e o que é feito dele hoje, a pesquisa exerce um importante papel social ao dar força à primeira opção.



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+ O artigo saiu também no Ponto Eletrônico.

Formas de Poder e o Resgate da "Classe C"

Tudo o que é explícito é obviamente muito mais fácil de ser percebido do que o abstrato. A frase chega a soar estúpida de tão óbvia. No entanto, quando se trata de formas de manutenção do poder de grupos dominantes sobre grupos dominados, essa ideia tão óbvia é um alerta importante.

É muito fácil enxergar que existe um grupo dominante e outro dominado ao se deparar com um condomínio ou um empreendimento luxuosíssimo exatamente ao lado de uma favela, ao ver um mendigo pedindo esmola no farol em meio a SUVs e carros esportivos, e tantas outras centenas de exemplos a que já nos acostumamos. Os produtos materiais da desigualdade, por serem explícitos, demandam um mínimo ínfimo de consciência para serem percebidos. Mesmo quem foi privado dos meios mais fundamentais de desenvolvimento, como a alfabetização, consegue perceber com extrema clareza que há alguns que podem muito mais do que ele.

Se praticamente todos conseguem perceber a existência de dominantes e dominados no universo explícito, quando se trata do abstrato, é impressionante como se reduz estonteantemente a parcela daqueles que ainda conseguem enxergar. É justamente nas formas imateriais que a dominação ganha proporções assustadoras porque nem mesmo os dominantes percebem que estão exercendo formas de poder e assim as reproduzem continuamente.

Cultura é um elemento primordial de uma sociedade e é imaterial. Não é à toa que seja justamente a cultura uma das formas mais absolutas de manutenção de dominantes sobre dominados. Cultura é algo incrivelmente rico em diversidade, ela se manifesta das mais incontáveis formas, sempre em mutação espontânea e constante. É natural da cultura que ela seja diversa. Determinar quais elementos da cultura têm valor e quais não têm, isso é uma construção do homem, e mais importante, uma ferramenta de poder na medida em que deslegitima a voz de grupos sociais completos simplesmente por não compartilharem das formas apontadas como valorosas.

Se cultura é um território gigantesco, há dentro dele uma área bastante delimitada e restrita que contém a "cultura de valor". Não é nenhuma coincidência que ela corresponda majoritariamente aos códigos culturais da chamada “classe A”. O discurso corrente que explica tal situação baseia-se numa idéia de evolução. A explicação é simples: a “classe A” frequenta melhores escolas, melhores ambientes, assim se desenvolve melhor, portanto, suas produções culturais são mais elevadas. Já a chamada “classe C” segue o caminho inverso, portanto, suas produções são de valor cultural inferior. 

Não duvido que de fato exista evolução, mas duvido que essa correspondência de "cultura de valor" e cultura da "classe A" se explique exclusivamente por tal argumento. Há outra explicação que se mantém oculta: se a "cultura de valor" corresponde majoritariamente aos códigos culturais da "classe A" é porque foi exatamente esta quem determinou o que é ou não valor na cultura, já que a concentração de renda lhes deu desde o princípio o poder necessário para impor tais determinações.

Mais aguda que a distribuição desigual de renda é a distribuição desigual de reconhecimento. Auto-estima e renda certamente têm relação, mas não são necessariamente dependentes. Por pior que seja a condição financeira de uma pessoa, sua auto-estima consegue manter-se quando ela sente que sua voz é reconhecida, tem valor. Se retirar a renda de um grupo é tirar-lhe poder por diminuir suas possibilidades de ação no mundo, retirar o reconhecimento do que falam é a última etapa de uma dominação completa.

Quando alguém da “classe A” desconsidera as produções culturais da “classe C”, isso é muito mais do que uma simples constatação do que é mais ou menos evoluído, isso é um exercício de poder, é retirar da “classe C” a possibilidade de reconhecimento de sua cultura ao tratar o diferente como inferior, tosco, brega... A natureza simplesmente é, ela é verbo e substantivo só, não é brega nem cool, não é superior nem inferior, não é tosca nem elaborada, os adjetivos são construções do homem que dão poder a quem está na posição privilegiada de colocá-los nas coisas.

Participo de um projeto que a princípio dá aulas de redação para pessoas que não tiveram como escapar da defasada educação pública do país e desejam escrever melhor. No entanto, logo no primeiro encontro deixamos bem claro que a língua, como a cultura, é extremamente mutante e diversa, que jeito certo ou errado de falar são determinações arbitrárias decididas por quem detém o poder. Reforçamos então que escrever bem está muito menos ligado a escrever dentro da norma padrão, e muito mais ligado e pensar/sentir bem e expressar bem o pensamento/sentimento, e todas as modalidades da língua, não só a considerada culta, podem ser usadas para tanto. Seguir a norma padrão é simplesmente uma forma de furar a barreira da divisão de classes e conseguir se mimetizar pela língua no meio dos “classe A”.

Portanto, os encontros são espaços em que a voz de todos os participantes é reconhecida e todos são estimulados a produzir alguma forma de expressão pessoal. É realmente impressionante como a auto-estima deles é transformada pelo simples ajuste de que não precisam seguir as referências culturais da “classe A” porque o que realmente importa é produzir sua própria cultura.

Reconhecer todas as formas de manifestação cultural como legítimas pode contribuir, em última instância, para uma readequação das formas de poder entre dominantes e dominados, uma importante conquista num país marcado pela desigualdade social.

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+  O artigo saiu também no Ponto Eletrônico.

Máximos e Mínimos

Definitivamente, não me toca a suposta grandiosa erudição expressa nas grandiosas análises que explicam a grandiosa complexidade dos grandes movimentos da humanidade. Sou tocado por um pequeno poema, até mesmo um haikai, que me faz enxergar a beleza de pequenas coisas ao nosso redor que já nem sequer olhamos mais, que a busca mecânica do sucesso tratou de abandonar. De nada vale o máximo de inteligência se não gera o mínimo de sensibilidade.

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Mistério

Uma atendente jovem, muito bonita, entre lisonjeada e preocupada, tenta impedir um velhinho de presenteá-la comprando-lhe um livro da própria livraria. Ele dirige-se ao caixa. Ela o acompanha tentando dissuadi-lo. Somem entre as prateleiras. Algum tempo depois, ela retorna, sozinha, os olhos mal comportando as lágrimas prestes a escorrer, as mãos trazendo de volta o presente do velhinho.

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